O enfrentamento das mudanças climáticas no Pantanal depende também da preservação de outros cinco biomas que influenciam diretamente a maior planície alagável do mundo. Além do Cerrado, da Amazônia e da Mata Atlântica, que ficam no Brasil, o Pantanal também recebe influência do Chaco e do Bosque Chiquitano, localizados na Bolívia e no Paraguai. A conexão entre esses ecossistemas faz com que alterações ambientais fora do Pantanal tenham impactos diretos sobre os rios, a biodiversidade e o regime de águas da região.
De acordo com especialistas ouvidos pela Agência Brasil, o Pantanal funciona como um grande reservatório de água e vida. A água percorre longas distâncias até chegar à planície alagável, mas essa característica também torna o bioma vulnerável às transformações provocadas pelas mudanças climáticas e pelo uso inadequado do solo.
Dados do último mapa de uso e cobertura da terra do MapBiomas mostram que, em 2025, o Pantanal havia perdido mais de 1 milhão de hectares de savana alagada em comparação com o início da série histórica, em 1985. A área representa 84% da cobertura de savana alagada existente no início do período analisado. Desse total, 833 mil hectares foram convertidos para outros tipos de formação vegetal, como áreas de vegetação savânica ou campestre.
Rios do Pantanal estão mais fracos
A redução da água já é percebida por moradores e pesquisadores que acompanham as transformações ambientais no bioma. Segundo o engenheiro florestal e botânico Claudinei Terena, partes de rios desapareceram ou sofreram assoreamento. Canais conhecidos como vazantes, que normalmente recebem e devolvem água dos rios, também deixaram de funcionar como antes.
Claudinei nasceu na Terra Indígena Limão Verde, em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, e relata que, no passado, a abundância de água contribuía para a fertilidade do solo e para a produção de alimentos. O conhecimento tradicional também é utilizado atualmente em projetos de recuperação ambiental.
Um desses trabalhos envolve a restauração de 3,3 hectares de áreas de nascentes dentro da Terra Indígena. A iniciativa busca recuperar o Cerrado e garantir que a água continue fluindo para o Pantanal.
A recuperação das nascentes é considerada uma das estratégias para reduzir os impactos das mudanças no uso da terra sobre os rios que abastecem o Pantanal. Projetos desenvolvidos pelo WWF-Brasil atuam na restauração de áreas de cabeceiras no Cerrado, buscando evitar o soterramento das nascentes e preservar o fluxo dos rios.
Outro exemplo vem da comunidade quilombola Santa Tereza, em Figueirão, também em Mato Grosso do Sul. Integrante da Rede Flores do Cerrado, o coletor de sementes Adauto Cândido Pereira participa da coleta e comercialização de sementes utilizadas em projetos de restauração das margens de rios.
A atividade segue regras para reduzir os impactos sobre a vegetação. Entre elas está a orientação de deixar cerca de 30% das sementes nas árvores, garantindo a continuidade da regeneração natural.
Pequenas hidrelétricas também preocupam
Além da restauração ambiental, especialistas defendem mudanças na forma como os recursos hídricos são utilizados. A instalação de pequenas centrais hidrelétricas pode fragmentar os rios, afetar a biodiversidade aquática e causar impactos sobre atividades econômicas importantes para a região, como o turismo.
Como alternativa, o WWF-Brasil aponta o potencial de fontes como a energia solar para atender à demanda regional sem provocar os mesmos impactos sobre os rios.
Dentro do próprio Pantanal, ações de prevenção e combate aos incêndios florestais e a criação de corredores de vegetação nativa também são consideradas importantes. Esses corredores conectam áreas protegidas e ajudam na preservação de espécies, como a onça-pintada, considerada um indicador da saúde e da integridade da biodiversidade.
Para especialistas, o conhecimento tradicional dos povos que vivem no Pantanal é outro elemento fundamental para enfrentar os desafios ambientais. A integração entre comunidades, pesquisadores, organizações e iniciativas de restauração pode contribuir para preservar os recursos hídricos, a biodiversidade e a capacidade do bioma de resistir às mudanças climáticas.









