Pesquisadores da USP usam rastros de átomos para investigar contaminação, nutrição animal e química

(Imagem: Divulgação)

Técnicas desenvolvidas no centro da USP ajudaram a identificar radioatividade após acidentes como os de Goiânia e Chernobyl e também são aplicadas em pesquisas sobre agricultura e nutrição animal

Os rastros deixados por átomos podem revelar informações importantes sobre o ambiente, os alimentos e até o funcionamento do organismo. No Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA) da USP, em Piracicaba, técnicas analíticas são usadas há décadas para identificar elementos radioativos e acompanhar o caminho de determinadas substâncias.

Um dos episódios que evidenciou a importância desse trabalho foi o acidente com césio-137 em Goiânia, em 1987. Pesquisadores do CENA foram enviados à cidade para auxiliar no monitoramento da contaminação. Amostras de folhas, flores e frutos foram analisadas e ajudaram a identificar que o material radioativo havia chegado às plantas e se espalhado pelo solo.

A partir dessas análises, foi recomendada a poda de árvores frutíferas próximas ao principal foco de contaminação, como forma de evitar que principalmente crianças consumissem frutos contaminados.

Rastros que atravessam fronteiras

O trabalho do CENA também ganhou importância após o acidente nuclear de Chernobyl, em 1986. A pesquisadora Elisabete Aparecida De Nadai Fernandes identificou radionuclídeos em lotes de leite em pó importados da Europa que haviam chegado ao Brasil.

Segundo o relato da pesquisadora, parte do leite contaminado havia sido encaminhada à Irlanda, onde recebeu nova embalagem antes de ser exportada para outros países. Amostras levadas ao CENA foram analisadas e apresentaram contaminação.

O impacto dos acidentes também chegou ao comércio exterior brasileiro. Após o episódio de Goiânia, países compradores passaram a exigir certificados que comprovassem a ausência de radioatividade em produtos brasileiros. O CENA já emitiu mais de 100 mil desses documentos, segundo Elisabete.

Radioisótopos também ajudam na nutrição animal

A mesma lógica de rastreamento pode ser aplicada para entender como determinadas substâncias circulam pelo organismo. Na área de nutrição animal, pesquisadores do CENA utilizam radioisótopos para estudar, por exemplo, o metabolismo do fósforo em bovinos, ovinos e caprinos.

O fósforo é essencial para esses animais, mas sua suplementação representa um custo para os produtores. Com o uso do fósforo-32 como traçador, pesquisadores conseguem acompanhar sua presença em urina, fezes, sangue e tecidos e estimar a quantidade necessária para uma dieta adequada.

Ao longo dos anos, os estudos também passaram de experimentos diretamente nos animais para técnicas realizadas em laboratório. Equipamentos capazes de simular a digestão microbiana do rúmen permitem testar alternativas de produção de ruminantes com menor impacto ambiental.

Técnica revolucionou análises químicas

Outra contribuição do CENA está na química analítica. Pesquisadores do centro participaram do desenvolvimento da chamada Análise por Injeção em Fluxo, conhecida como FIA.

A técnica surgiu na década de 1970 a partir do trabalho do pesquisador tcheco Jaromir Ruzicka, que esteve no CENA em 1974. A proposta permitiu automatizar etapas das análises químicas, reduzindo a interferência humana, o consumo de amostras e reagentes e a quantidade de resíduos produzidos.

O avanço dos equipamentos também ampliou a capacidade de detectar quantidades cada vez menores de substâncias, permitindo novas aplicações em pesquisas ambientais, agrícolas e laboratoriais.

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