A série “Um cassino em cada bolso”, exibida no Café com Blink, reuniu especialistas para discutir os impactos das apostas online no Brasil. Economista, psicólogo, pesquisadora e advogado analisaram os efeitos das chamadas bets sob diferentes perspectivas, mas chegaram a um consenso: o crescimento acelerado das plataformas de apostas já provoca consequências que vão muito além das perdas financeiras.
A primeira entrevista contou com a participação do economista Eugênio Pavão, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e especialista em estrutura e dinâmica da economia sul-mato-grossense. Segundo ele, o avanço das plataformas de apostas está comprometendo a renda de milhares de famílias brasileiras, reduzindo o consumo e provocando reflexos negativos no comércio e na economia. Para o economista, parte significativa da renda que antes era destinada ao varejo e ao consumo básico passou a ser direcionada às apostas, alimentando um ciclo de endividamento que preocupa especialistas.
Além dos impactos econômicos, Pavão destacou que o vício em apostas também produz consequências para a saúde pública. Casos de compulsão, depressão, super endividamento e até suicídio têm sido associados ao crescimento desse mercado, evidenciando que o problema ultrapassa a esfera financeira.

Economista Eugênio Pavão, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
Dando continuidade ao debate, o Café com Blink recebeu o psicólogo clínico e psicanalista Augusto Paulista, formado pela UCDB e membro do Corpo Freudiano de Campo Grande. Durante a entrevista, ele explicou como a rápida expansão das plataformas de apostas encontrou um país despreparado para lidar com esse novo cenário.
Segundo o especialista, a combinação entre tecnologia, publicidade e acesso imediato aos jogos criou um ambiente favorável ao desenvolvimento da compulsão, especialmente entre pessoas emocionalmente mais vulneráveis. Na avaliação de Augusto Paulista, o vício em apostas apresenta características semelhantes às observadas em dependências como álcool e cigarro, levando o jogador a insistir nas apostas na tentativa de recuperar perdas financeiras e alimentando um ciclo de culpa, ansiedade e novas tentativas.
O psicólogo ressaltou ainda que, em muitos casos, o problema deixa de ser apenas econômico e passa a comprometer a saúde mental, os relacionamentos familiares e a qualidade de vida. Para ele, quando o jogo evolui para um quadro de dependência, deixa de ser uma escolha exclusivamente individual e passa a gerar impactos para toda a sociedade, aumentando a demanda por atendimento em saúde mental, agravando transtornos psicológicos e contribuindo para o endividamento das famílias.

Augusto Paulista, psicólogo clínico e psicanalista formado pela UCDB
Economia e famílias sentem os efeitos das bets
A discussão prosseguiu com a participação da doutoranda em Antropologia pela UFGD Aline Correia Antonini, que pesquisa os impactos das apostas online na vida cotidiana de famílias de Campo Grande. A pesquisadora afirmou que, até o momento, não encontrou relatos de pessoas que tenham melhorado de vida por meio das bets. Em contrapartida, o que predomina em sua pesquisa são histórias marcadas por dificuldades financeiras, conflitos familiares e sofrimento emocional.
Além das perdas econômicas, Aline chamou atenção para os reflexos sociais do problema. Segundo ela, pequenos empreendedores relatam queda no consumo, enquanto muitas famílias deixam de comprar alimentos e de pagar contas básicas para continuar apostando. Paralelamente, cresce a procura por atendimento psicológico e psiquiátrico relacionado à ludopatia, transtorno caracterizado pela incapacidade de controlar o impulso de jogar.
Na avaliação da pesquisadora, o tratamento não deve se limitar ao indivíduo, mas envolver também toda a família, diretamente afetada pelas consequências da dependência. Ela defendeu ainda a ampliação das políticas de prevenção, campanhas educativas, fiscalização mais rigorosa da publicidade e maior investimento em atendimento especializado, considerando que o problema já representa um desafio para a saúde pública e para a organização social.

Doutoranda em Antropologia pela UFGD, Aline Correia Antonini
Regulamentação das apostas online ainda enfrenta desafios
Encerrando a série, o advogado trabalhista e especialista em Direito do Consumidor Thiago Duque Estrada abordou os desafios da regulamentação das apostas esportivas no Brasil. De acordo com ele, apesar dos avanços promovidos pela legislação que entrou em vigor em 2025, ainda existem lacunas que exigem constantes atualizações por meio de portarias e normas complementares para acompanhar a velocidade de expansão das plataformas digitais.
Durante a entrevista, Thiago explicou que a regulamentação passou a exigir que as empresas autorizadas mantenham CNPJ e patrimônio no Brasil, medida que amplia a segurança jurídica dos consumidores. Com isso, usuários prejudicados podem recorrer à Justiça em situações como descumprimento de pedidos de autoexclusão, falhas na prestação do serviço ou outras irregularidades.
O advogado também destacou que a publicidade envolvendo apostas passou a sofrer restrições mais rigorosas, especialmente após episódios envolvendo influenciadores digitais e transmissões esportivas, o que acelerou a criação de novas regras para limitar mensagens que incentivem diretamente o público a apostar.
Por fim, Thiago reforçou que as apostas devem ser encaradas exclusivamente como uma forma de entretenimento, jamais como fonte de renda. Para ele, o fortalecimento da regulamentação, aliado à conscientização da população, será fundamental para reduzir os impactos sociais provocados pelo crescimento das apostas online.

Advogado trabalhista e especialista em Direito do Consumidor, Thiago Duque Estrada
Ao reunir especialistas de diferentes áreas, a série “Um cassino em cada bolso” mostrou que o fenômeno das apostas online vai muito além do entretenimento. Seus efeitos alcançam a economia, a saúde mental, as relações familiares e o sistema jurídico, evidenciando a necessidade de um debate amplo e de políticas públicas capazes de enfrentar um problema que cresce na mesma velocidade das plataformas digitais.








