As apostas esportivas e os jogos de azar online já ultrapassaram o impacto financeiro e passaram a transformar a rotina de famílias em Campo Grande. Essa é a conclusão da pesquisa desenvolvida pela doutoranda em Antropologia da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Aline Correa Antonini, que investiga como as bets têm alterado relações familiares, provocado endividamento e ampliado problemas de saúde mental na Capital.
Segundo a pesquisadora, o interesse pelo tema surgiu em 2023, quando ainda atuava como professora da rede pública e passou a observar estudantes falando sobre plataformas como o “Tigrinho” dentro da sala de aula. Com o avanço da pesquisa, vieram relatos de famílias endividadas, empréstimos com agiotas, desaparecimento de pessoas e abandono do convívio familiar após perdas sucessivas em apostas. Aline afirma que, até o momento, não encontrou casos de pessoas que tenham melhorado de vida por meio das bets, mas sim histórias marcadas por dificuldades financeiras e sofrimento emocional.
Além das perdas econômicas, a pesquisadora chama atenção para os reflexos sociais do problema. Pequenos empreendedores relatam queda no consumo, famílias deixam de comprar alimentos e de pagar contas básicas para continuar apostando, enquanto cresce a procura por atendimento psicológico e psiquiátrico relacionado à ludopatia — transtorno caracterizado pela incapacidade de controlar o impulso de jogar. Para ela, o tratamento não deve focar apenas no indivíduo, mas também no núcleo familiar, que acaba sofrendo diretamente as consequências do vício.
Durante entrevista ao programa Café com Blink, Aline defendeu a necessidade de ampliar o debate público sobre o tema e reforçar políticas de prevenção e regulação das apostas online. Na avaliação da pesquisadora, campanhas educativas, fiscalização mais rigorosa sobre publicidade e maior investimento em atendimento às famílias são medidas fundamentais para enfrentar um problema que, segundo ela, já deixou de ser apenas econômico e passou a representar um desafio para a saúde pública e para a organização social.
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