Entrevista: Professor Leandro Tortosa analisa impactos do tarifaço de Trump para o Brasil
O novo tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já causa repercussões no Brasil, especialmente entre pequenos produtores e setores exportadores. Em entrevista ao Café com Blink, o professor Leandro Tortosa explicou os impactos da medida, criticou a politização das sanções e apontou os riscos à economia brasileira, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste.
Sanções políticas: caso Alexandre de Moraes
Durante o programa, Tortosa comentou as recentes sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, enquadrado na Lei Magnitsky, que o exclui do sistema financeiro global. A medida, segundo o professor, foi originalmente criada para punir agentes ligados a violações de direitos humanos, mas tem sido aplicada de forma cada vez mais política por Trump.
“Essa lei foi criada na era Obama, após a morte de um dissidente russo que denunciou corrupção. Hoje, está sendo usada para punir adversários políticos, como defensores dos direitos palestinos ou, neste caso, Moraes, o que enfraquece o espírito original da lei”, afirmou Tortosa.
O ministro do STF recusou apoio da Advocacia-Geral da União para se defender nos EUA, num movimento que o professor considera “inteligente politicamente” por reforçar a separação entre os poderes brasileiros.
A força do dólar e o poder dos EUA
O professor também abordou a relação entre a força do dólar e o controle exercido pelos EUA no cenário global. Segundo ele, esse poder se originou no pós-guerra, com o Acordo de Bretton Woods, que consolidou o dólar como moeda de referência mundial. Hoje, ele vê um cenário mais favorável à diversificação monetária, citando o PIX e até mesmo o Bitcoin como alternativas que fogem ao domínio americano.
“O dólar virou uma arma geopolítica. Ele é usado para punir quem se opõe aos EUA, enquanto aliados como Israel e Arábia Saudita seguem intocados, apesar de conflitos e denúncias graves”, destacou.
Tarifaço: impactos imediatos e desiguais
Sobre a nova política tarifária, que impõe uma sobretaxa de 50% a produtos brasileiros a partir de 6 de agosto, o professor foi direto: “O Brasil é o mais penalizado. É uma forma de pressionar economicamente aliados da China, sem bater de frente com os chineses diretamente”.
Apesar disso, um estudo da Fundação Getúlio Vargas indica que a região Centro-Oeste será a menos afetada, devido à sua pauta exportadora diversificada. O Mato Grosso do Sul, por exemplo, exporta principalmente carne e tilápia, que ainda têm alguma margem de manobra.
“O problema maior está nas regiões Norte e Nordeste, onde a agricultura familiar é predominante. Produtores de frutas, mel e hortaliças, que têm menor capacidade de estocagem e negociação, sentirão o impacto imediato”.
Preocupação com os pequenos produtores
A tilápia fresca, por exemplo, que era enviada de avião aos EUA, agora pode perder mercado. Embora ainda possa ser congelada, perde valor agregado, o que afeta diretamente o bolso do produtor.
“Os grandes ainda conseguem negociar ou redirecionar a produção. Mas para o pequeno, que depende daquele ciclo de venda, a perda é dura. É o caso do Piauí, onde o preço do mel já caiu de R$ 18,50 para menos de R$ 15,00, com tendência de queda maior”.
Trump e o fim da globalização?
Na análise de Tortosa, o segundo mandato de Trump marca o fim da globalização como conhecíamos. “Ele transformou a diplomacia em negócio. Quer retomar o protagonismo dos EUA usando a força bruta, e não mais o diálogo multilateral. O alvo principal é a China, mas ele ataca pelas bordas, e nós estamos nelas”.
O professor encerrou com um alerta. “Precisamos repensar nossa inserção no mercado internacional. E, mais do que nunca, proteger os pequenos produtores que sustentam boa parte da nossa economia”.
Confira a entrevista completa:
O tarifaço entra em vigor no dia 6 de agosto para o Brasil.