Nutricionista esclarece mitos sobre alimentação durante o tratamento do câncer

Em entrevista à Blink 102, especialista em nutrição oncológica alerta para restrições sem comprovação científica e reforça a importância de uma dieta equilibrada e individualizada.

O diagnóstico de câncer costuma vir acompanhado de uma série de recomendações sobre o que comer ou evitar. Entre as orientações mais comuns estão cortar açúcar, leite e glúten, além de apostar em chás e suplementos que prometem combater a doença. Mas essas restrições nem sempre têm respaldo científico e podem prejudicar a alimentação de quem já enfrenta os desafios do tratamento. O alerta foi feito pela nutricionista especialista em nutrição clínica em oncologia Fabiane Neiva, durante entrevista ao programa Café com Blink, da Blink 102, no quadro especial Se Toca Mulher, dedicado ao Outubro Rosa.

Segundo a especialista, retirar completamente o açúcar ou os carboidratos da dieta não faz o câncer passar fome. Embora as células tumorais tenham um metabolismo diferente e utilizem glicose como fonte de energia, as células saudáveis também dependem desse combustível. Além disso, o organismo possui mecanismos para manter os níveis de glicose no sangue. Isso não significa que o consumo excessivo de açúcar seja recomendado, mas que a restrição total não é uma forma comprovada de combater a doença.

O leite também está entre os alimentos frequentemente excluídos por pacientes oncológicos, sob a alegação de que provocaria inflamação. Fabiane explica que não existe justificativa para retirar leite e derivados da alimentação de todas as pessoas com câncer. A exclusão pode ser necessária em situações específicas, como intolerância à lactose ou alergia à proteína do leite, mas deve considerar as necessidades de cada paciente. A nutricionista destaca ainda a importância do cálcio, nutriente presente no leite, para a saúde.

A mesma lógica vale para o glúten. De acordo com a profissional, pacientes oncológicos não precisam eliminar pão, massas e outros alimentos que contêm essa proteína quando não há indicação clínica, como doença celíaca ou outra condição que exija restrição. O mais importante é observar a composição da alimentação como um todo, priorizando refeições variadas e nutritivas. Um pão, por exemplo, pode fazer parte de um café da manhã equilibrado quando acompanhado de outras fontes de nutrientes, como ovos e frutas.

Não existe alimento capaz de curar o câncer

A nutricionista também chamou a atenção para promessas encontradas nas redes sociais, como sucos, chás e receitas caseiras apresentados como tratamentos contra o câncer. Segundo ela, nenhum alimento isolado é capaz de curar a doença ou substituir terapias como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e hormonioterapia. Uma alimentação saudável pode contribuir para o estado nutricional e a qualidade de vida, mas deve fazer parte do cuidado acompanhado pela equipe de saúde.

Outro cuidado importante envolve os produtos naturais. Fabiane alerta que chás, ervas, especiarias e suplementos podem interagir com medicamentos utilizados no tratamento oncológico, alterando seus efeitos ou aumentando o risco de toxicidade. Por isso, qualquer produto desse tipo deve ser discutido previamente com os profissionais responsáveis pelo acompanhamento. A aparência natural de uma substância não garante que ela seja segura.

Ultraprocessados exigem atenção

Durante a entrevista, a especialista explicou que os alimentos ultraprocessados são produtos industriais que passam por diversas etapas de processamento e costumam conter ingredientes como aditivos, corantes, conservantes e aromatizantes. Entre os exemplos estão salgadinhos de pacote, refrigerantes, macarrão instantâneo e refeições prontas para aquecer. Quando substituem com frequência alimentos in natura ou minimamente processados, esses produtos podem tornar a alimentação menos nutritiva.

A recomendação é dar preferência a alimentos variados, como frutas, verduras, legumes, feijão, arroz e fontes de proteína. A combinação de arroz e feijão, tradicional na alimentação brasileira, fornece aminoácidos complementares e contribui para uma dieta equilibrada. A carne vermelha também não precisa ser excluída automaticamente do cardápio, embora o consumo deva ser moderado. Já carnes processadas, como presunto, salsicha e salame, devem ser evitadas ou consumidas o mínimo possível, especialmente pelas recomendações relacionadas à prevenção do câncer colorretal.

Cuidados durante a quimioterapia e no pós-operatório

Além da qualidade nutricional, a segurança dos alimentos merece atenção especial durante tratamentos que podem comprometer a imunidade e no período de recuperação de cirurgias. A nutricionista recomenda evitar carnes cruas ou malpassadas e ovos com gema mole nessas situações, além de higienizar corretamente frutas, verduras e legumes. O objetivo é reduzir o risco de infecções transmitidas por alimentos.

Fabiane também esclareceu que o ovo pode fazer parte da alimentação após uma cirurgia e fornecer proteínas importantes para a recuperação. A preparação deve evitar o excesso de gordura, mas não há necessidade de transformar a alimentação em uma lista rígida de proibições. Restrições temporárias podem ser indicadas conforme os efeitos colaterais do tratamento. É o caso da mucosite oral, inflamação que pode causar feridas na boca e tornar alimentos cítricos, muito quentes, secos ou apimentados desconfortáveis.

Mamografias gratuitas em Campo Grande

Durante o programa, a equipe do Café também reforçou uma ação do Outubro Rosa em Campo Grande. O Hospital de Câncer Alfredo Abrão oferece 80 mamografias gratuitas por dia, de segunda a sexta-feira, para mulheres de 40 a 65 anos, até 27 de novembro de 2026, exceto fins de semana e feriados. Segundo as informações divulgadas na entrevista, as senhas são distribuídas a partir das 6h, com possibilidade de atendimento também no período da tarde, conforme a disponibilidade.

Para realizar o exame, é necessário apresentar RG, CPF e Cartão do SUS. O hospital fica na Rua Marechal Rondon, esquina com a Avenida Presidente Ernesto Geisel. A orientação é procurar avaliação profissional diante de alterações nas mamas, como nódulos, secreção no mamilo ou mudanças na pele. O autoconhecimento é importante, mas não substitui os exames de rastreamento e diagnóstico indicados pelos profissionais de saúde.

Para assistir a entrevista completa, acesse nosso canal no Youtube

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